radio

Free Shoutcast HostingRadio Stream Hosting

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Natureza e Identidade da Igreja de Cristo A natureza da Igreja como Corpo místico de Cristo e habitação do Espírito e o amor fraterno entre os crentes são os elementos que determinam a identidade da Igreja.

Natureza e Identidade da Igreja de Cristo

A natureza da Igreja como Corpo místico de Cristo e habitação do Espírito e o amor fraterno entre os crentes são os elementos que determinam a identidade da Igreja.
Em horários intercalados, a Catedral de Rouen, um dos mais belos e impressionantes templos góticos já produzidos pelo espírito e engenho humano, foi sucessivamente pintada pelo mestre impressionista Claude Monet. Movido pelo interesse cada vez mais constante de captar as várias mutações que o efeito da luz provocava na fachada gótica, Monet pinta cinquenta telas em horários e dias intercalados para captar todo o efeito óptico da fachada de Rouen. A Catedral é a mesma, mas o élan que os feixes de luz e sombras provocam no artista dá-lhe a impressão de que cada fachada é nova e distinta. O frontispício imponente permanecia inamovível e imutável, mas ao espírito e olhos de Monet as imagens mudavam radicalmente. A paisagem diante de si apresentava-se nova e diversa, de acordo com a luminosidade natural e a incidência da luz sobre o templo. O assombro que tomou conta de Monet dirigiu-o a pintar mais uma vez a Catedral. A tela, assinada no mesmo ano, 1894, foi chamada Catedral de Rouen vista ao amanhecer. A igreja é a mesma, mas trata-se de obras autônomas e distintas. 
A pintura da fachada da Catedral de Rouen ilustra perfeitamente os estudos e discursos modernos concernentes a identidade da Igreja. E o assombro do artista, talvez, seja representado melhor pelo absconditus barthiano: “Estamos perante o mistério de Deus quando nos deparamos com o mistério da Igreja.” Diversos teólogos, missionários, pastores e biblicistas têm apresentado várias nuanças do mesmo frontispício, da mesma igreja, de acordo com sua própria arte e metodologia. 
Emil Brunner, por exemplo, afirmava que a essência da igreja do Novo Testamento era a comunhão com Cristo e o amor entre os crentes: Segundo Brunner: "O Corpo de Cristo nada mais é do que uma comunhão de pessoas. É a 'comunhão de Jesus Cristo' ou 'comunhão do Espírito Santo', onde comunhão ou koinonia significa uma participação comum, uma condição de estar juntos, uma vida em comunidade."
Para Brunner, a natureza milagrosa e excepcional da Igreja é a união mística com Cristo. A Igreja é o Corpo de Cristo. Não deve, portanto, ser confundida com uma mera organização, e o clero não deve exercer sobre ela o mesmo domínio que um líder tem sobre uma instituição. Nessa perspectiva, o teólogo dialético considera o derramamento do Espírito na festa de Pentecostes como o início da Igreja. A efusão do Espírito Santo é identificado estritamente com o nascedouro da Igreja e ambos são indissociáveis. Segundo o autor “no começo da história da Ecclesia está o mistério do Pentecostes”.
O envio do Paracleto inaugura um novo começo, entendido como misterioso e comunitário: “onde o Espírito está”, afirma, “existe comunhão cristã”. A Igreja não surge por iniciativa humana, seja por um esforço individual, seja coletivo. Uma vez que a Igreja não é produto do empreendimento humano, o Espírito Santo não cria cargos por meio dos quais o líder governa, mas serviços através dos quais o líder serve. É a presença de Cristo por meio de sua Palavra e de seu Espírito que torna a Igreja o que ela é. O Espírito Santo é o próprio fôlego de vida da Igreja e, portanto, ela não pode ser confundida com uma instituição sagrada, ou como numerus electorum (números dos eleitos), pois trata-se do Corpo de Cristo.
Se a Igreja deixar de ser Corpo de Cristo para se tornar uma instituição, mesmo que sagrada, ela perde sua natureza, essência e identidade para tornar-se “imagem e semelhança de seus líderes”, de seu tempo e cultura. Em síntese, a natureza da Igreja como Corpo místico de Cristo e habitação do Espírito e o amor fraterno entre os crentes são os elementos que determinam a identidade da Igreja. A Igreja é Corpo de Cristo e comunhão dos fiéis, como também afirmará Pannenberg.
Wolfhart Pannenberg considera o Corpo de Cristo como o conceito mais profundo da natureza e identidade da Igreja. Para ele, esse corpo se realiza e se configura na celebração da ceia do Senhor. A celebração da ceia do Senhor, afirma, “constitui a igreja como corpo de Cristo e, logo, como comunhão dos fiéis”. Uma vez que a santa ceia do Senhor não é uma criação da Igreja, mas uma instituição de Jesus em que a anamnese e epiclese configuram-na, afirma Pannenberg: “A multidão dos que crêem é igreja somente pela celebração da ceia do Senhor, que os torna corpo de Cristo e assim uma congregação da nova aliança”.
O Senhor presente na ceia é o mesmo que morreu na cruz, entretanto essa presença se dá por meio da memória de Jesus que se encaminha para a morte. Memória, para o autor, é “atualização cultual na forma de celebração”  que transita para a prece pela vinda do Senhor (maranatha:1Co 16.22) na comunhão da ceia como antecipação do reino vindouro de Deus.  A celebração da santa ceia é vivificada pela presença do Espírito Santo. Cristo está presente no culto de celebração pascal por meio do Espírito (Mt 18.20); não unicamente pelo fato de o Espírito ser invocado (epiclese), mas sim, por ser Ele o que torna a anamnese eficaz como forma de adoração e serviço a Jesus Cristo.
De acordo com Pannenberg, a celebração da ceia do Senhor sempre foi mais do que uma “peça axial” do culto dos primeiros cristãos. Era tanto unidade mística com Cristo e celebração da comunhão cristã, quanto proclamação pública da morte de Cristo perante os que ainda não creem. Essa tríade deveria constituir um sinal da esperança pela consumação da humanidade no reino de Deus, caso não houvesse, como se verifica na história, o convício. 
Por meio de cisões, pela intolerância e ambição de poder de seu clero, mas também por adaptação excessiva aos modismos cambiantes do mundo de um lado e por formas estreitas e coercitivas de devoção de outro, que permitem notar pouco do hálito libertador do Espírito, a igreja sempre de novo obstruiu a tarefa fundamentada em sua essência. 
Todavia, para o autor, esse sinal não deixa de sê-lo pelas inconstâncias e discórdias da Igreja. É a pregação do evangelho que renova aos membros o seu pertencimento a Jesus. A Igreja, Corpo de Cristo, é o verdadeiro povo de Deus, não obstante à perda de sua natureza e identidade nas muitas cisões que a fragmentou. Mas se a comunhão mística com Cristo e a unidade dos cristãos em amor são os elementos que constituem a identidade da Igreja; então podemos dizer que a Igreja perdeu essa identidade há muitos séculos e que já não estamos mais tratando de uma entidade única, mas diversa. Ou se a unidade com Cristo é o que mantém a unidade entre os fiéis que participam da mesma mesa; então, os convícios que marcam a história dessa instituição são um atentado direto à identidade e natureza dela, além de ser um forte testemunho contra a sua unidade mística com Cristo.
9 comentário

Nenhum comentário:

Postar um comentário